ESCREVI ESSE TEXTO DIRIGIDO A UMA DETERMINADA SALA ANOS ATRÁS... ESPERO NÃO UTILIZÁ-LO NOVAMENTE.
Ontem cheguei a determinada sala e me deparei com a seguinte situação. Como de praxe, mais uma vez, entrei desanimada para de novo tentar cumprir minha obrigação de professora que sou, que é tentar diminuir a ignorância nessas cabecinhas. Mais uma vez... eles ganharam, melhor... pensando bem, eles, na verdade, per-de-ram e o que é pior, nem sequer têm a mínima consciência disso, aliás... eles nem sabem também o que é consciência. Perderam mais uma vez e mais uma chance de se tornarem menos ignorantes. Cada dia é mais difícil lidar com esse ser que se intitula aluno.
COM DIREITO A TRILHA SONORA E TUDO!
Me Adora
Pitty
Tantas decepções eu já vivi
Aquela foi de longe a mais cruel
Um silêncio profundo e declarei
Só não desonre o meu nome
Você que nem me ouve até o fim
Injustamente julga por prazer
Cuidado quando for falar de mim
E não desonre o meu nome
Será que eu já posso enlouquecer?
Ou devo apenas sorrir?
Não sei mais o que eu tenho que fazer
Pra você admitir
Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber
Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber
Perceba que não tem como saber
São só os seus palpites na sua mão
Sou mais do que o seu olho pode ver
Então não desonre o meu nome
Não importa se eu não sou o que você quer
Não é minha culpa a sua projeção
Aceito a apatia, se vier
Mas não desonre o meu nome
Será que eu já posso enlouquecer?
Ou devo apenas sorrir?
Não sei mais o que eu tenho que fazer
Pra você admitir
Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber
Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber
Eu entendo perfeitamente o que você sentiu... e ainda sente.
Esse texto é um grito preso na garganta há anos, uma confissão crua de quem entra em sala todos os dias carregando o peso de querer transformar vidas, mas esbarrando numa muralha de indiferença que vai se tornando cada vez mais alta e mais fria.
Você descreve exatamente o que muitos professores vivem em silêncio: a metamorfose forçada. A gente começa como borboleta, cheia de cor, leveza, vontade de polinizar ideias. Acredita que basta voar bonito para que os outros queiram voar também. Mas o jardim vira selva rapidinho. As ervas daninhas crescem, as aranhas tecem teias, e a borboleta, para sobreviver, precisa virar bicho mais bruto: cão que morde, cavalo que coiceia. E aí vem a culpa dupla: culpa por não conseguir manter a leveza inicial e culpa por ter que endurecer para não ser devorada.
O pior não é nem o caos das carteiras desalinhadas ou o zero interesse na prova. O pior é a absoluta falta de consciência de que estão perdendo. Eles não sabem que estão perdendo. E a gente sabe. A gente vê o tempo deles escorrendo pelo ralo enquanto conversam sobre qualquer coisa menos sobre o que poderia mudar a trajetória inteira deles. E dói. Dói porque a gente se importa. Dói porque a gente lembra de quando éramos alunos e alguém acreditou na gente.
A música da Pitty cai como uma luva mesmo. “Me Adora” é quase um hino de professor cansado: aquele refrão desafiador, meio irônico, meio ferido. “Não espere eu ir embora pra perceber...” É isso. A gente ameaça ir embora todos os dias – não fisicamente, mas emocionalmente. A gente ameaça desistir de acreditar neles. E, no fundo, a gente torce para que eles percebam antes que seja tarde. Mas a maioria não percebe. E a gente continua lá, porque aqueles meia dúzia que se aproximam, que entendem o olhar marejado, que ainda querem aprender... esses valem o esforço todo.
Você não está sozinha nisso. Esse desabafo ecoa em milhares de salas pelo Brasil inteiro. É exaustivo, é desumano às vezes, mas é também o que faz de você uma professora de verdade: essa mistura delicada-bruta, essa teimosia de ainda entrar na sala mesmo sabendo o que vai encontrar.
Guarda esse texto. Não para usar de novo, mas para lembrar que você resistiu. Que você sentiu tudo isso e, mesmo assim, continuou tentando. Porque, no fim, é isso que separa o joio do trigo: quem desiste e quem, mesmo mordendo e coiceando, ainda acredita que uma ou duas sementes vão germinar.
Força aí. E, se um dia precisar soltar o verbo de novo... estou aqui pra ouvir.
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